Erick Pulgar
Em um ano marcado por intensas batalhas no futebol sul-americano, Erick Pulgar emerge como uma das figuras mais sólidas e inspiradoras do continente. Nascido nas areias quentes de Antofagasta, no norte do Chile, o meio-campista de 31 anos encontrou no Flamengo não apenas um clube, mas um lar onde sua garra e visão de jogo se transformaram em troféus. Com a recente vitória sobre o Palmeiras na final da Copa Libertadores, em 29 de novembro de 2025, Pulgar levanta sua segunda taça continental, consolidando-se como peça fundamental no tetra do Mengão. Esta história vai além dos gramados: é sobre superação, adaptação e o fogo que queima em quem carrega o peso de representar uma nação inteira.
Origens Humildes: Dos Desertos Chilenos ao Sonho do Futebol
Erick Antonio Pulgar Farfán veio ao mundo em 15 de janeiro de 1994, em Antofagasta, uma cidade portuária banhada pelo Pacífico, conhecida mais por suas minas de cobre do que por berços de craques. Filho de uma família modesta, Pulgar descobriu o futebol aos seis anos, chutando bola nas ruas poeirentas com o Miramar Club Sur Este, um time local que moldou seus primeiros dribles. “Era tudo improvisado, mas ali aprendi a lutar por cada centímetro”, recorda-se ele em entrevistas passadas, ecoando a resiliência típica dos nortenhos chilenos.
Aos 15 anos, o destino sorriu: durante um torneio juvenil, o olheiro Carlos Cárcamo o avistou e o levou para as categorias de base do Deportes Antofagasta. Lá, Erick começou como ponta e lateral-esquerdo, posições que exigiam velocidade e fôlego infinito – qualidades que ele ainda exibe hoje, aos 1,87m de altura. Sua estreia profissional veio em 2013, e logo se tornou titular absoluto. Em 38 jogos pelo clube do coração, marcou dois gols e foi eleito o melhor jogador da temporada de 2014. Aqueles anos foram de aprendizado duro: o time brigava para não cair na Primera B chilena, e Pulgar, com sua marcação feroz, era o escudo que impedia o pior.
A virada veio em junho de 2014, quando a Universidad Católica apostou US$ 400 mil em 70% de seus direitos. Assinou por três anos e, apesar de uma campanha irregular do time, brilhou individualmente: sete gols em 35 partidas na liga. Sob o comando de Mario Salas, Pulgar migrou para o meio-campo defensivo, onde sua estatura e leitura de jogo o transformaram em um recuperador de bolas implacável. “Ele é daqueles que parece ler o futuro do jogo”, elogiava Salas na época. Foi o trampolim para a Europa, onde o mundo o esperava.
A Aventura Europeia: De Bologna a Fiorentina, Lições de Intensidade
O salto para o Velho Continente aconteceu em agosto de 2015, quando o Bologna, da Série A italiana, o contratou por quatro temporadas. Com a camisa 5 nas costas – número que o acompanha até hoje –, Pulgar enfrentou o rigor tático do futebol transalpino. Em 100 jogos de liga, anotou 10 gols, mostrando faro de artilheiro em bolas paradas e uma entrega que conquistou a torcida rossoblù. Sua extensão de contrato em 2019, até junho de 2022, foi merecida: ele se tornou capitão e líder em campo.
Mas o auge – e os desafios – veio na Fiorentina, para onde se transferiu em agosto de 2019. Em Florença, a Cidade do Renascimento, Pulgar viveu o ápice de sua carreira italiana: 74 partidas na Série A, oito gols e uma identificação imediata com os viola. Marcava com a precisão de um cirurgião e distribuía passes como um maestro, ajudando a Viola a flertar com vagas europeias. No entanto, lesões e a pandemia de COVID-19 – ele testou positivo em agosto de 2020 – testaram sua fibra. Em fevereiro de 2022, um empréstimo ao Galatasaray, na Turquia, serviu de respiro: 11 jogos e um título doméstico, reacendendo sua fome por vitórias.
Esses anos na Europa forjaram o Pulgar que conhecemos hoje. Longe da família, ele aprendeu a lidar com a pressão de estádios lotados e rivais vorazes. “O futebol italiano me ensinou a ser paciente, mas o turco me devolveu a paixão pelo caos”, confidenciou uma vez. Foi essa bagagem que o levou de volta à América do Sul, pronto para um novo capítulo.
Chegada ao Flamengo: Adaptação e o Fogo do Mengão
Em julho de 2022, o Flamengo pagou €3 milhões à Fiorentina para repatriar Pulgar à América. O contrato inicial ia até dezembro de 2025, mas em março de 2025, após negociações tensas, ele foi estendido até o fim de 2027, com uma cláusula de liberação de US$ 6 milhões a partir de meados de 2026. A torcida rubro-negra, sempre ávida por reforços de impacto, o recebeu com ceticismo inicial – afinal, como um chileno se encaixaria no samba do Maracanã? – mas Pulgar calou as dúvidas com ações.
Sob o comando de técnicos como Jorge Sampaoli – que o lançou na seleção chilena –, ele se tornou o pilar do meio-campo. Em 89 jogos de liga até maio de 2025, marcou três gols e distribuiu assistências precisas. Sua marcação implacável e visão periférica permitiram que criadores como Arrascaeta e De Arrascaeta brilhassem. Em 2023, levou para casa a Bola de Prata, prêmio de melhor jogador da posição no Brasileirão. No ano seguinte, foi eleito para o time ideal do Campeonato Carioca e da Copa do Brasil. E em 2025, o Carioca veio novamente para o armário de troféus.
Mas não foi só glória. Em junho de 2025, durante o Mundial de Clubes, uma entrada dura contra o Bayern de Munique o deixou com uma lesão no corpo inferior, saindo de maca após um gol contra acidental. “Dor faz parte, mas o título cura tudo”, disse ele ao voltar. Recuperado, Pulgar se tornou o termômetro do time: incansável na pressão alta, ele recupera bolas como poucos e inicia contra-ataques letais.
A Seleção Chilena: Orgulho Nacional e Momentos Eternos
Representar o Chile é o que move Pulgar desde a base. Estreou pela La Roja em 2015 e, até outubro de 2024, soma 54 jogos e quatro gols. O primeiro veio na Copa América de 2019, contra o Japão (4-0), um cabeceio que ecoou como hino nacional. Outros dois na Eliminatória para a Copa de 2022, contra Bolívia e Venezuela, mostraram sua veia goleadora em momentos chave.
O ponto alto? A Copa América de 2016, conquistada nos pênaltis contra a Argentina de Messi. Pulgar, então novato, foi peça chave na defesa. “Levantar aquela taça em Nova Jersey foi como renascer”, reflete ele. Hoje, aos 31, lidera uma geração em transição, jogando Eliminatórias e amistosos com a mesma fome. Sua parceria com Sampaoli na seleção e no Flamengo cria uma simbiose perfeita, onde tática e emoção se fundem.
Estilo de Jogo: O Gigante que Protege e Cria
O que torna Pulgar especial? Sua versatilidade. Alto e veloz, ele cobre o campo como um zagueiro no meio, interceptando passes com timing impecável. “É um recuperador nato, mas com pés de seda para o passe longo”, analisa o jornalista brasileiro Juca Kfouri. No Flamengo, sua taxa de desarmes por jogo é das mais altas da Série A, e ele raramente erra lançamentos. Pode jogar como volante, zagueiro ou até líbero em esquemas de três zagueiros. Críticos apontam falhas em faltas duras – como na final da Libertadores –, mas é essa intensidade que o define: joga 100%, sem meio-termo.
A Final Épica da Libertadores 2025: Herói Apesar das Controvérsias
O dia 29 de novembro de 2025 ficará gravado na história rubro-negra. No Estádio Monumental, em Lima, o Flamengo enfrentou o Palmeiras na final da Libertadores. O jogo, atrasado 15 minutos, pegou fogo logo aos 28: uma falta de Bruno Fuchs em Arrascaeta gerou confusão generalizada. Pulgar, no calor do momento, recebeu amarelo por conduta antidesportiva após uma entrada imprudente em Fuchs – a imprensa brasileira, como o Globo Esporte, criticou a “imprudência” que poderia ter custado um vermelho. “Se jogo 100%, isso passa. Se for 10%, me expulsam”, rebateu ele pós-jogo, com o troféu na mão.
O Mengão venceu por 1-0, com gol de Bruno Henrique, e Pulgar jogou os 90 minutos: bloqueou chutes cruciais, como um de Felipe Anderson no fim, e ditou o ritmo. Foi seu segundo título continental – o primeiro como titular absoluto. A celebração no Rio foi ensurdecedora: fãs entoavam “Pulgar, monstro!”, e ele, emocionado, dedicou à família e ao Chile. Rumores de interesse do Rennes francês surgiram no inverno, mas a extensão contratual selou seu futuro no Brasil.
Vida Pessoal: Família, Fé e o Legado Além do Campo
Fora das quatro linhas, Pulgar é um homem de família. Casado e pai dedicado, ele equilibra a loucura do futebol com rotinas simples: churrascos com companheiros e chamadas para Antofagasta. Sua fé católica é pilar, e ele apoia causas sociais no Chile, como projetos para jovens carentes em bairros periféricos. “O futebol me tirou da rua, agora eu devolvo”, diz. Lesões, como a de junho, o aproximaram da filantropia, e ele planeja uma academia de futebol em sua cidade natal após pendurar as chuteiras.
O Futuro Brilhante: Mais Títulos e um Legado Eterno
Com 31 anos, Pulgar está no auge. No Flamengo, mira o hexa do Brasileirão e mais uma Libertadores. Pela seleção, sonha com a Copa de 2026. Seu contrato até 2027 garante estabilidade, mas o mundo do futebol sabe: talentos como ele transcendem fronteiras. Erick Pulgar não é só um jogador; é o símbolo de que, com garra e humildade, o deserto pode florescer em glória continental.
Em um esporte de efemeridades, Pulgar constrói eternidade. Que venham mais batalhas – o Mengão, e o futebol sul-americano, agradecem.








